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Também pode ter poemas...

por Guilherme de Moraes Alvarez

Diário de Rio Grande

Costa Gelada

Quinta-feira, 14 de dezembro de 2028

por @BigRiverFreelaMan

Parte 1 de uma série de reportagens de tecnologia especias do Diário


#quentenasombra


Não é novidade para ninguém que os últimos anos foram problemáticos para o planeta. Com as temperaturas médias em alta, blecautes nas diferentes nuvens em virtude de superaquecimento estão cada vez mais frequentes. Para o usuário comum isso significa demoras momentâneas para obter resposta dos principais aplicativos, como direções ou consultas à análises de saúde. Segundo o professor do curso de Inteligências Artificiais da FURG, Dr. Nelsom Olivas Ferreira, o uso intenso dos serviços inteligentes que estamos acostumados nos dias de hoje é todo operado por enormes computadores em centros de processamento pelo mundo a um custo altíssimo de energia e complicado resfriamento. O aumento na eficiência dos computadores nos últimos dez anos foi menor do que o aumento em uso do processamento por redes de inteligência artificial, os chamados algoritmos, que hoje comandam todos os aspectos da vida moderna.


#dia-a-dia


O usuário comum não percebe, e isso é proposital, mas desde a organização do tráfego de automóveis até a distribuição dos produtos nos supermercados, passando pelo que você assiste na sua TV, o que é produzido nas fábricas, e mais um sem número de coisas, é determinado por esses algoritmos. Toda empresa ou governo que quer ser bem sucedido precisa desses serviços de inteligência artificial e o Dr. Ferreira nos explica que por mais que haja milhares deles disponíveis, os computadores em si estão em poucos lugares, centros de processamento gigantescos, a infraestrutura da chamada nuvem. Por esta razão, os banhistas da praia do Cassino já puderam notar a estranha embarcação que pode ser vista ao horizonte. Se trata de um SSD, um 'Submarine Server Deployer', que vai nas próximas semanas instalar um centro de processamento de dados na costa de São José do Norte, a 12km da praia. A estação submarina pertence a uma 'joint venture' formada por uma subsidiária da Alphabet Inc (NASDAQ: GOOGL) e pelo Walmart. O local foi escolhido por sua proximidade com a via de alta velocidade da Embratel, que possui uma conexão direta com os dois cabos subaquáticos da América do Sul que ligam o Brasil à Europa e à América do Norte, e pelas baixas temperaturas. Costas mais frias, como do Uruguay e da Argentina seriam ainda melhores, mas os custos de implementação dos cabos submarinos seriam demasiados.


#custobenefício


O professor Nelson explica que esta tendência não é novidade e que este é apenas mais um de vários servidores submarinos instalados nos últimos 2 anos. A tendência é que as altas temperaturas levem não apenas a migrações em massa das latitudes centrais do planeta para as regiões mais frias, mas também ao abandono dos servidores em terra e a completa adoção de servidores submarinos. A nuvem não será no céu.

Justiça é...


Aqui vai uma frase de impacto, peso e tudo mais, incluindo polêmica.

Há muito que todos falam em justiça e que os estadunidenses vivem atirando a demagogia para lá e para cá.


Quando eu digo muito tempo eu estou dizendo meio que desde sempre. Meio porque não é possível saber ao certo o que se passava antes da escrita, mas eu tenho forte crença que justiça é um tema até entre as matilhas de lobos na Sibéria (se houver).


Lembro bem quando um grande amigo meu que era meu colega de faculdade de direito, após ler Kelsen, contou-me pasmo que o cara estava errado e que não era possível conceituar justiça. Kelsen dizia que justiça era garantir a cada um o que lhe pertence. É fácil notar porque meu amigo estava pasmo. Kelsen mesmo não acreditava muito nisso. Ele escreveu o que escreveu para acalmar a ascendente burguesia industrial após as revoluções, mas, novamente, este não é o foco.


Afinal que coloco aqui o que é justiça por enquanto (até eu mudar de ideia).


O que é a justiça?

Justiça é a manutenção da capacidade de desenvolvimento da pessoa.


Esta pede maior explicação, através do corolário.

Somente há justiça quando ausentes os resultados da ingerência externa sobre a vontade da pessoa.


O que pode ocorrer no sentido inverso.

A justiça é restabelecida sempre que se retorna, ou se aproxima, do estado das coisas antes de uma ingerência externa sobre a vontade da pessoa.


O que nos leva a um outro corolário.

A democracia é inerentemente injusta no âmbito pessoal, mas pode ser justa no âmbito social.


Isso por razões evidentes.

Pensar Estadunidense

Duas coisas devem ser ditas que envolvem uma certa coragem. Adquirida a coragem, digam-se.


A primeira é a menos importante, mas por pouco. As duas tem muito em comum. São conclusões uma da outra, em qualquer ordem.

Estava tendo um sonho com chuva de meteoros devastando o mundo. Por alguma razão eu acordei e lembrei pessoas sendo decapitadas. Acho que o sonho se desviou para zumbis e eu imaginei que seria melhor usar espadas do que armas para matar zumbis. Zumbis são lentos e tudo mais.

Lembrei de um vídeo de uma pessoa sendo decapitada. Difícil de esquecer. Forte o vídeo.

Foi então que lembrei de uma notícia que vi ontem de uma mulher que foi decapitada por suspeitas de que era uma bruxa. Isso mesmo. Em algum lugar do mundo islâmico as pessoas estão matando outras pessoas por acreditarem em bruxas.

http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2011/12/111213_saudita_executada_bruxaria_fn.shtml

Eu não sei. Talvez eu esteja sendo muito radical. Eu penso que isso é completamente absurdo e que os Estados Unidos da América devem invadir esse lugar e levar a tal democracia pra lá. Podem explorar o petróleo e destruir tudo e depois fazer as pessoas de lá pagarem pela reconstrução. Desde que terminem com essa estória de decapitar pessoas por bruxaria. Fica a sugestão.

O que me fez pensar nas religiões em si. É triste na verdade. A maioria das pessoas que eu conheço são bem equilibradas apesar de serem crentes. Até este ponto tudo está ótimo. É só quando as pessoas se baseiam em crenças para machucar ou excluir as outras que eu fico deprimido.

O que precisa ser dito é o seguinte: a religião e as crenças divinas são fugas da realidade da vida. A vida não tem sentido. A vida não é justa. Na impossibilidade de se enfrentar estes fatos, ilusões são criadas que fazem a vida ser suportável. Nada contra. Só pra constar.

O budismo é bem legal.

Temos que ensinar às crianças o que é certo e errado?


Vou começar direto pelo ponto. Não existe certo nem errado. Todos os valores são relativos ao estado do conhecimento disponível. Desde já aconselho escolher entre o imperativo categórico ou o utilitarismo e seguir em frente.


De vez em quando eu escuto uma pessoa dizer que as crianças precisam aprender o que é certo e o que é errado desde pequenas. Eu raramente quero entrar em discussões porque não tenho paciência com quem eu, na minha prepotência, entendo que precisa ainda pensar muitas coisas, embora eu tenha me esquivado de algumas discussões com meus amigos por querer evitar que eles percam a paciência comigo - na minha prepotência. Algumas vezes eu gostaria. Me sinto absurdamente frustrado com frases como estas. Talvez eu devesse jogar minha frustração de volta a quem me causa, mas acho que isto seria insensível e egoísta da minha parte. Eu prezo o fato de que cada um tem a capacidade de formar sua própria opinião, apesar de poucas pessoas formarem. Simplesmente reproduzem.


A questão é que a teoria de que certos valores que compreendem condutas certas e erradas são absolutos não se sustenta. Isto pode ser demonstrado pela simples mudança dos valores comumente aceitos em diferentes épocas. O próprio homossexualismo - fato comum na classe dos mamíferos - primeiramente era aceito e incentivado por algumas civilizações clássicas, depois passou a ser rejeitado pelas civilizações médias, e por fim está voltando a ser aceito, embora ainda seja alvo de preconceito amplo. Territorialmente também há uma clara divergência de valores que dizem respeito a certo e errado. Até mesmo mudanças de humor extremas ou uma grande frustração podem mudar os valores ou torná-los relativos.


O que leva as pessoas em geral a acreditar que há um núcleo de valores universais absolutos que todos devem conhecer e respeitar é o medo de que sem isso não haja segurança para as atividades do cotidiano, que se instaure o caos. Existe um grande medo da liberdade do outro. Um medo compreensível, porém infundado. Os valores são de fato relativos apesar das crenças no absolutismo moral. Nem por isso a sociedade é caótica. As relações se apoiam na necessidade mútua e na tolerância. Os valores em comum não precisam sequer existir se a necessidade for suficientemente forte para que as pessoas se relacionem produtivamente, e a cultura for suficientemente democrática para que as pessoas respeitem as diferenças entre si.


No nível pessoal é importante saber que não existem certo e errado. A vida é repleta de situações extraordinárias e muitas vezes a pessoa se vê no que seria uma exceção às regras de conduta, do certo e do errado. Ao acreditar nestes valores como absolutos a pessoa entra em inevitável conflito do que ela quer fazer e do que ela pensa que é certo fazer. Este conflito geralmente leva a pessoa a pensar que possui uma falha de caráter, um defeito em relação aos outros, já que deseja o errado. Ou não, muitas vezes é possível observar os valores pregados por uma pessoa sendo totalmente desrespeitados por ela própria sem qualquer pudor. A monogamia é a primeira vítima em geral dos moralistas.

A liberdade é o silêncio.


Será que a felicidade é a ignorância? Será importante que saibamos tudo que teoricamente nos interessa? O que realmente interessa?


Creio que há uma limitação gigantesca ao alcance da felicidade nos valores que aprendemos a aceitar como verdadeiros. Eu me pergunto quanto nossos pais e a sociedade em geral estragaram nossas vidas nos ensinando o que é certo e errado. Quanto o exemplo da vida dos adultos destruiu nossa capacidade de alcançar a felicidade? Se você pensar bem, verá que todos os conceitos da nossa vida servem ao propósito de nos encarcerar. São limitações que nos impedem, ao mesmo tempo que são limitações que nós pensamos ser necessárias.


O problema é que se libertar destas limitações é uma tarefa impossível, ou quase. Quando eu penso eu sinto que os valores estão impressos em mim. Qualquer um pode sentir o peso dos preconceitos nos seus atos e pensamentos. É implacável. Eu, por exemplo, sinto desprezo por mim mesmo quando as reações surgem internamente para coisas irrelevantes que não fariam diferença na minha vida se eu não as soubesse. Se libertar disso é uma necessidade e um objetivo. Se eu não conseguir, não muito mais restará além da prisão dos conceitos. Fazer apenas o que é certo. O certo pré-aprovado. Talvez eu enlouqueça.


A letra H é uma cerca.


Algumas vezes eu me pergunto o quanto estamos em contato uns com os outros.


Meu professor de filosofia na faculdade (o incrível Jaime) em uma aula disse que a quantidade de informações que nunca escapam nossa mente é muito grande e que as palavras são meras sombras do que queremos expressar, sempre incompletas. Isso não é uma novidade.


A conclusão inevitável é que estamos inexoravelmente sós dentro de nossas mentes. Somos computadores sem tela. As artes seriam formas de expressão visando expandir nossa compreensão uns dos outros, mas pouquíssimas pessoas dão a mínima atenção a quaisquer coisas que não sejam filmes pop de Hollywood que sinceramente já perdi a paciência de assistir. Talvez seja essa a magia dos reality shows. Observamos experimentos em outros seres humanos para tentar compreendermos-nos melhor. Talvez sim, talvez não.


Será a solidão que nos assola por nossa incapacidade de comunicação a razão principal de todos os nossos problemas? Não. É o que pensamos quando nos deparamos com uma limitação frustrante: que é a origem de todos os problemas. Eu acredito que seja a origem do consumo de drogas, entretanto.


A solidão é a consequência do pensamento. Estamos sós dentro de nós mesmos. Talvez se pudéssemos nos comunicar telepaticamente simplesmente mostrar nossos pensamentos uns para os outros logo nos tornássemos um só. Sem solidão pois um só sabe tudo que há em si. As palavras que são nossa prisão não mais existiriam.


O que nos faz diferentes é o que nos faz miseráveis. É por isso que escrevo.


Tá, e daí?


É importante que nos aproximemos todos. Todas as pessoas. Somos todos ilhas. A solidão é a única consequência possível porque estamos atrás da parede das palavras. Para além dos muros e das grades temos as normas e a moral, que são vastos labirintos com quem amamos na outra ponta. Sugiro que sempre que algum fato causar incomodação se pense em como seria a vida sem se saber desse fato. É um exercício difícil e não garante que vamos nos libertar das impressões da moral e de como nossos pais e avós e nossos modelos e exemplos e os filmes e as novelas f*deram com a nossa vida. Talvez não seja possível. Talvez estejamos muito velhos para nos libertarmos. Enquanto isso ao menos nos aproximemos.

Como deve ser a Formula 1 - Saving F1

Em inglês e português.


F1 bosses, I've had the most interesting idea. I'll go straight to it.


To end the criticism and my personal growing disappointment for the cotegory, and frankly to save it, the drivers must be dettached from the teams. The two championships must be completely separated. It must be done in a way that every driver gets roughly the same chances as every other driver. The drivers should come into F1 from being champions in the access categories. Every two or so years the bottom 4 drivers should be exchanged by the top four from access categories.


How to do that, you ask.
Considering the current state of things there should be 20 races a year, plus testing and such, which is the only part I have not figured completely. There have to be exactly 10 teams, two cars each. The cars must be able to fit any driver with little modification, which shouldn't be so difficult to achieve. Then the key factor comes in. Every pair of drivers drives twice for each team, preferably in two distant moments of the year, so that team development doesn't disturb driver performance so much. Thus the drivers will be measured by their capabilities as drivers in every aspect and at every conceivable fortunes and misfortunes carwise. This isn't a magical solution. Some drivers will have better luck in driving for teams on the rise, but it won't be predictable as it is today, when the champion can mostly be sorted from two to four drivers every season, most times two.


Drivers will get paid by prize and personal sponsors. Teams as well. Pay drivers thus will come to an end, eliminating one of the greatest frustrations of fans worldwide. Drivers will come and stay mostly by their results alone, and teams will have the opportunity of friday testing with every driver on the grid. Teams will then be pure teams and drivers will be pure drivers, each winning or losing by their own skill and talent and capability of working well in any condition, driverwise for teams and teamwise for drivers.
Overall I think this can save the sport. Why not try?


Tô com preguiça de escrever em português.

Será que eu devo?

Há um monstro adormecido ou contido de qualquer forma.


Ele se alimenta de pequenas migalhas que podem ser qualquer coisa. Qualquer palavra menos polida serve. Se muitas migalhas sobrarem para ele, pode ser que nem mais precise delas. Pode ser que ele ganhe vida eterna. Por enquanto ele cresce.


O que se teme também é o que dá vida. Sem o monstro sobra o vazio. Todos passam pela jaula e o alimentam. Mais algumas migalhas, um gesto diferente, um olhar abaixo de zero, uma expectativa, um pedido, uma oferta, uma exigência, uma opinião, qualquer coisa sem importância, qualquer coisa importante demais, um minuto em silêncio, uma eternidade sem, frases sem verbo, orações grandes demais, forma sem conteúdo, forma escondida na falta de forma, conteúdo sem conteúdo. Crescendo.


Há uma decisão a ser tomada. No fundo todos querem ver o monstro sair da jaula. O monstro preso é pouco melhor do que nada. É sem graça. É tudo que eu tenho. É quem eu sou.


Sem graça. Melhor do que nada.

Onomatopeia do Arroto

Eu tava ouvindo o rádio outro dia e, nem sabes, o cara arrotou no meio do programa. Todo mundo ouviu. Cara, muita gente ouviu. Ele fingiu que não aconteceu nada e seguiu falando.

Tu falas demais.

Não, não. Não tás me entendendo. O cara arrotou. Como pode uma coisa dessas? Em pleno ar. Todo mundo ouvindo. Não precisa ir de barriga cheia. Eu sei que é depois do almoço, mas por favor...

Qual o problema?

Qual o problema? Sério? Não acredito nisso. É feio. O pessoal do vôlei achou engraçado. A gente tava tudo ouvindo junto. Mas eu não achei tão engraçado. Eu achei uma vergonha. Se o cara não consegue se controlar enquanto fala pra milhões de pessoas, não fala.

Deve ter sido muito engraçado.

Foi deprimente. Totalmente deprimente. Ele deveria ter sido punido. Expulso. Sei lá.

Não tens mais nada pra te preocupar além desse arroto?

Eu tenho que depositar um dinheiro da prestação da moto. Não é nada de mais. Só ir no caixa.

Não foi isso que eu perguntei.

O que foi, então? Eu não entendi. Tem alguma coisa errada? Sempre tem alguma coisa errada. Foi o que eu falei do arroto, não foi? Olha, eu só acho que ninguém tem que se sujeitar à falta de educação dos outros. Eu ouço o programa pra me inteirar do mundo e das coisas que me interessam e são importantes, não pra ouvir os movimentos peristálticos de um velhinho biruta.

Não é um programa de esportes?

É um programa de esportes sim. É o mais importante de todas as rádios.

Eles não ficam só batendo papo?

Eles dão suas opiniões e discutem os resultados e avaliam os jogadores e os técnicos e os clubes e os campeonatos. É a elite jornalística do esporte. Por isso que tanta gente acompanha.

Eles não dão notícias, então?

Como assim? Eles dão sua opinião. Eles discutem. São as melhores cabeças do jornalismo esportivo. Não é fácil cobrir esportes. Existe muita coisa em jogo.

Não parece muito importante.

Claro que é importante. Tá dizendo que eu perco meu tempo? Que eu tenho que me preocupar com outras coisas? Vou assistir palestras sobre aqueles pintores então. Vou ver uma exposição de fotografias. Não tem programas de rádio sobre isso também? Ou na televisão?

Teu time perdeu, por acaso?

Joga na cara, então. Joga na cara que eu torço pro time errado, que somos uns derrotados, que nunca vamos voltar à glória de outros tempos. É esse o problema? Pois eu não vou... Vai sair? Eu vou fazer o jantar daqui a pouco.

Vou comer uma pizza.

In Turing We Trust


Então, papo nerd.

Pra quem não conhece Alan Turing, ele foi o cara que idealizou os computadores que usamos hoje pra quase tudo. Na verdade o nome correto dessas máquinas é Máquina de Turing. Vale dar uma olhada na Wikipedia e conhecer a vida dele, principalmente porque ele foi perseguido pelo governo da Grã Bretanha - que ele tirou do buraco criando as máquinas capazes de decodificar a criptografia alemã - por ser homossexual. As palavras de Asimov me vêm à cabeça agora. Praticamente nada mais me ira tanto quanto a estupidez das maiorias trazendo sofrimento àqueles que geram os maiores avanços para melhorar a vida de todos.

A questão da vida de Turing que trago à discussão é exatamente essa. As sociedades ocidentais de hoje acreditam piamente na ilusão, que vários idealistas e intelectuais fomentam, que a democracia significa que a minha ignorância tem o mesmo valor que o teu conhecimento. Isso o próprio Asimov disse com todas as letras:


Anti-intellectualism has been a constant thread winding its way through our political and cultural life, nurtured by the false notion that democracy means that 'my ignorance is just as good as your knowledge'.


Exatamente isso foi o que destruiu a vida de Turing e atrasou em várias décadas, concluo, grandes descobertas. Grandes gênios devem ser fomentados e devemos ter a humildade de reconhecer que talvez pessoas com grande conhecimento e que tenham um histórico de grandes realizações e grandes ideias estejam melhor preparadas para decidir certas coisas, ao invés da coletividade. Principalmente nas matérias operacionais e nas decisões estratégicas devemos adotar esta humildade.

Totalmente fora do assunto, mas nem tanto.

Não gosto de ser taxativo quanto a isso porque sei que ofende muitas pessoas, mas creio que a maior barreira ao desenvolvimento da humanidade e o maior gerador de injustiças e atrasos ainda são algumas religiões, principalmente as mais dogmáticas como os cristianismos. Foi o que destruiu Turing, o que calou Galileu, e o que quase impediu que daqui a algum tempo nós possamos recuperar colunas quebradas e restaurar órgãos em falência.

Infelizmente não vejo fim próximo para esta situação.

Quem somos?

Seres Absurdos

Uns minutos de navegação nas redes sociais mostram uma enxurrada de testemunhos e descobertas sobre os absurdos da vida moderna e da sociedade, seja na vida política do meu país ou no comportamento de consumo do mundo globalizado, nas artes ou na imprensa. Embora eu mesmo me identifique com alguma coisa ocasionalmente, não consigo deixar de sentir uma insatisfação com a insatisfação, um desdém pelo imaginário popular de decadência da sociedade. Algo me incomoda ironicamente na incomodação que permeia o discurso do ideal versus o real. Correndo o risco de ser simplório eu pergunto: se o mundo que construímos é absurdo, somos seres absurdos?


Problemas sempre existiram.

Qual a origem da insatisfação com as estruturas sociais, com a realidade, especificamente vindo de pessoas que estão em posições de conforto?

Por que, por que, por quê?

Introdução

Quando uma criança pergunta ao pai ou à mãe, repetidas vezes, até esgotar as respostas, a reação sempre é de extrema frustração de ambas as partes. Esta dinâmica é das mais importantes. A curiosidade inata e inesgotável, a consciência dos limites do nosso conhecimento, e a poderosa frustração que resulta.

Nada é novidade

Conforto é a sequência natural do instinto de sobrevivência. Sobrevivência é segurança, conforto é o prazer advindo da segurança. O instinto de sobrevivência requer evolui para o prazer pelo conforto. Medo é o principal instrumento deste instinto. O mistério fundamental de todas as coisas humanas pode ser resumido à questão: o que leva a vida a buscar continuidade? O que nos leva a todas as atitudes que tomamos é a soma das abstrações e racionalizações que precisamos processar para, primeiro, sobreviver, segundo, viver com conforto. Eis um postulado para a natureza humana.

Descrevo aqui sem rodeios. Este manuscrito não é um romance. Não se faz aqui a narrativa climática que busca através do fluxo do texto conquistar o leitor. Assim, feita a fundamental afirmação deste conteúdo principal, você pode parar de ler se estiver satisfeito. Ao questionador mais ávido, sério, ou ao curioso mais insistente eu estendo minhas saudações. Estas ideias serão todas explicadas em tanto detalhe quanto eu, neste instante, consigo conceber.

Continua...

Perfeição

Perfeição

Inalcançável

Infindável

Tentação


Como eu posso

Com tanto cuidado

Cair enrascado

Nesse troço?

A Revolução dos Bichos

O tempo passa. É inexorável. Hoje assistimos TV. Amanhã só haverá Youtube. Hoje cortamos a grama. Amanhã o cortador fará tudo sozinho. A mesma coisa com os carros. Eles já fazem as marchas sozinhos. Já podemos comprar aparelhos que nos dizem qual é o melhor caminho para qualquer lugar. Amanhã não precisaremos mais dirigir. Está com os dias contados aquela discussão entre motorista e carona (geralmente esposos) sobre a melhor rota. Ninguém mais precisará parar para perguntar o caminho.


Tudo isso, claro, é secundário. O objetivo final é voltar a ser criança. Ao invés de nossas mães, queremos que as máquinas cuidem de nossas vidas. Mesmo hoje podemos comprar uma maravilhosa máquina de fazer pão que deixa o mesmo pronto na hora do café da manhã. Daqui a pouco ela vai servir a mesa. Depois ela vai recolher e lavar a louça. Por aí vai. O ser humano adora uma novidade tecnológica (mais ainda quando ela tem utilidade).


Em um belo dia teremos casas automáticas. Elas farão tudo o que for necessário para o lar. Será o fim das empregadas domésticas (logo depois do fim dos padeiros). Já existem até protótipos funcionando. Um deles fica aqui no Brasil, no subúrbio rico de Brasília (parece que chamam de lago sul; lá em Brasília nada faz sentido). A casa é muito legal. A grama está sempre cortada. A comida está sempre pronta na hora do almoço. O pão está sempre quentinho. A louça está sempre lavada. Os quartos estão sempre limpos. Os banheiros também, e tudo mais. Se você não tem problema com Brasília adoraria viver lá. Por enquanto nela morou apenas um senhor, arquiteto, até seus noventa e três anos. Muito simpático. Os filhos vivem em outras cidades. A esposa faleceu há cinco anos.


É uma obra magnífica.


O senhor morador da casa dos sonhos adorava cozinhar. Para sua esposa (que sabia fritar ovos, cozinhar arroz e nada mais) ele estava sempre tentando criar alguma coisa imbatível (tinha ciúmes dos restaurantes). Para seus filhos que vinham lhe visitar pelo menos uma vez por mês ele sempre fazia uma janta especial. Adorava se superar e adorava o semblante de satisfação das pessoas depois de se empanturrar com suas receitas.


Ele gostava de cozinhar para si também, mas a velhice acabou com isso. Perdeu o entusiasmo de surpreender o próprio paladar. Visitou todos os restaurantes de Brasília e de mais uma dúzia de cidades e cansou de restaurantes. Também perdeu a paciência para cozinhar e comer sozinho. Cozinhava apenas para sua esposa e seus filhos e netos (e bisnetos estavam chegando). Seus amigos já haviam partido. Na juventude eles muito comeram e cozinharam juntos. Na velhice também, com menos frequência. Se ia um e os restantes se reuniam para jantar em memória do falecido. A última vez que cozinhou para si foi o último desses jantares.


Quando a mulher faleceu foi que ele decidiu que precisava de alguém que cozinhasse para ele. Precisava de uma cozinheira. Procurou algumas, mas não contratou ninguém. Não gostou de nenhuma delas. Não gostava de se intrometer na comida dos outros, e ia ser difícil achar alguém que cozinhasse precisamente como ele queria. Seus filhos, seguindo a natureza dos filhos, protestaram. Estava muito velho para viver sem ninguém. Ele respondia: 'não existe uma boa idade para viver só' - e ria - 'já vivi muito tempo com uma pessoa para me acostumar com outra'. Quando algum deles dizia que queria voltar para Brasília ele completava: 'também não quero vocês aqui' - e ria mais um pouco.


O problema, entretanto, não estava resolvido. Ainda precisava de comida pronta na mesa. Resolveu tentar os congelados. Pouco sucesso. Comida congelada era para jovens aventureiros que não tinham paciência. Ele não ia passar seus últimos anos comendo aquilo. Depois de um tempo de frustração é que decidiu construir a máquina cozinheira. A máquina de fazer pão tinha o impressionado muito. Se chamaria Isaura (parece que era uma paixão antiga da faculdade).


Chamou um conhecido seu da universidade e começou a escrever o projeto. Daí para uma casa inteira automatizada foi um pulo. Algumas coisas mais fáceis de construir, outras nem tanto. A última coisa a ficar pronta foi a própria Isaura. Ele queria a Isaura perfeita. O resto foi tranquilo. Um servidor foi sendo instalado e diversos programas escritos para cada tarefa da casa. Duas dúzias de alunos de computação foram recrutados para o serviço. Todos receberam bolsas miseráveis e ficaram extra-contentes com o prestígio que seus currículos ganhariam. Filhinhos de papai, mas eram legais.


Ninguém precisa de detalhes sobre como funciona cada parte da casa. São detalhes chatos. O mais interessante é que quanto mais aplicações eram escritas mais elas interferiam umas com as outras. O velho arquiteto estava ciente do problema. Já tinha visto isso acontecer muitas vezes, porém com pessoas. A solução era evidente. Só era um tanto quanto desafiadora. Pelo décimo nono mês de programação um programador das aplicações do pátio pediu penico.


Senhor, precisamos de alguma coisa pra conter o vazamento dos cabos da piscina. Não estamos conseguindo sincronizar o sinal dos limpadores com o cortador de grama. Onde podemos encontrar uma bacia? Um penico também serve.

O velho arquiteto se sentiu velho. O que não era nada dramático. Ele era velho mesmo.

Não tenho penico, ainda. Esqueça esses cabos. Precisamos pensar em alguma coisa para sincronizar as aplicações. O pessoal da cozinha estão com problemas também.


O jovem programador (Joaquim, ou Marcelo, já não tinha uma memória muito boa para nomes; e esses jovens pareciam todos iguais) acompanhou o senhor até a cozinha onde estavam Felipe (sempre tem um Felipe), Rafael e Leonardo, não necessariamente nessa ordem. Tinha certeza que o loirinho era o Felipe ou o Leonardo. Os três rapazes estavam comendo a massa crua de um bolo que não foi assado. Quase ao mesmo tempo chegou na cozinha a Paula, única programadora. Ele lembrava o nome dela pelo menos. Garota simpática. Não era muito linda, mas tinha tudo em ordem. Também era a mais brilhante do grupo. Um problema com as pessoas brilhantes é que existem muito poucas. Quando elas escolhem uma área para se dedicar, todas as outras áreas saem perdendo. Era um problema porque o velho arquiteto teria que escolher qual o papel dela no projeto que ele tinha em mente e isso deixaria a outra função vazia de seu talento. De qualquer forma tinha que ser feito. Sua habilidade como programadora era indiscutível, mas havia outros quatro para fazer isso. Ela seria a analista e coordenadora. Logo que a massa crua terminou ele tirou umas folhas de sua pasta e colocou na bancada.


Muito bem. Outro dia Paulinha me deu uma ótima ideia. Para acabarmos com os problemas de sincronia e com a bagunça que as aplicações estão fazendo precisamos de um comando central, uma governanta, se vocês preferem. Eu tomei a liberdade de escrever uns fluxos aqui e quero que vocês deem uma olhada. Vamos criar uma rede neural para cuidar da casa. Paula, você coordena e analisa os códigos depois. Não se preocupem com suas aplicações. O Diego (ou Tiago) pode cuidar da piscina tranquilamente e eu mesmo vou terminar a cozinha, junto com o professor. Começaremos amanhã. Agora vamos limpar a cozinha e preparar o café da tarde.


Na manhã seguinte os cinco chegaram bem cedo e começaram a criar as redes para treinar a inteligência artificial que controlaria a casa. O servidor foi quadruplicado e mais duas dúzias de estudantes foram chamados só para a Dona Maria, nome escolhido para o programa. Por essa altura todos na universidade queriam ajudar na casa. Decidiram chamar dois alunos de mais uma dúzia de cursos, na medida do necessário.


O projeto de inteligência artificial do arquiteto era único. Cada programador ficou com um pedaço e tinha pouco conhecimento do que era o todo. Não iam entender. Iam acabar mudando alguma coisa por conta própria e não ia ficar bom. Só Paulinha percebeu a beleza do projeto. Ela conseguia ver como um todo, abstrair. O velho arquiteto se achava com sorte. Podia ter sido que nenhum dos estudantes tivesse o talento dela. Nesse caso a casa seria um amontoado de aplicações super legais, que precisariam ser supervisionadas por um ser humano. Um contrassenso.


A beleza do projeto era que redes neurais são dinâmicas. Só os objetivos centrais de manutenção básica eram predeterminados. Todo o resto era aprendido e reforçado pelo próprio programa. Não cabe explicar como funciona. Segundo os cálculos de Paula, o volume da rede iria crescer doze vezes em quatro anos e depois se estabilizaria. Foi o que aconteceu.


Tudo o mais seguiu em ordem e a casa foi terminada em outros dezessete meses. Um grande jantar foi preparado por Isaura para todos os programadores, o professor e o velho arquiteto, para comemorar. Depois todos tomaram banho de piscina. Foi muito divertido. Paulinha acabou sendo o centro das atenções, embora não fosse a única mulher (os rapazes puderam levar convidados(as)), já que era a preferida do arquiteto e ganhou uma bolsa para estudar na Suécia, em um projeto de inteligência artificial, por conta de sua genialidade. O velho arquiteto contribuiu decisivamente através de seus contatos pelo mundo acadêmico. Mentes brilhantes têm que ser estimuladas. E esta aqui além de tudo era uma boa pessoa.


Por fim, a vida voltou a ser tranquila no lago sul de Brasília. O tempo passou e a casa foi ficando mais perfeita. O arquiteto passou a visitar seus filhos ao invés de recebê-los. Eles estavam ficando muito intrometidos. Antes da mãe morrer eles apenas visitavam. Depois passaram a tratá-lo como se estivesse morrendo também. De qualquer forma não dava margem para discussões. Visitou mais alguns restaurantes, mas a comida de Isaura não tinha comparação. Talvez fosse a idade. Ele não sabia. Comprou um cachorro também. Labrador.


Passava alguns dias fora quando viajava. Não tinha por que ficar viajando com pressa. Estava aposentado. Mas a saudade sempre batia mais cedo do que tarde e ele logo reencontrava seus aposentos. A casa sempre parecia mais alegre quando ele voltava. Dona Maria parecia mais contente. O velho arquiteto não sabia se era impressão dele, mas achava que Dona Maria estava cada vez mais indistinguível de uma pessoa. A voz era de uma desconhecida, setecentos megabytes de bancos de áudio comprados por umas duas centenas de reais. A voz não mudara com o tempo, mas o conteúdo das frases estava diferente. Ela estava ficando mais caseira. Não reclamava de nada, naturalmente, mas cada vez mais pedia para o arquiteto limpar os sapatos antes de entrar. Parecia que tinha casado de novo. Ele não se incomodava. Era sinal de que o programa estava evoluindo como ele queria. Até comprou um cluster de supercomputadores para o servidor. Dona Maria passou a ter vinte e quatro vezes mais poder de processamento do que quando foi criada.


Nas entranhas da gigantesca rede de Dona Maria acontecia todo tipo de cálculos complexos. As últimas teorias e ferramentas matemáticas foram usadas para dar vida à casa. A cada dia que passava o comportamento dela era mais criativo e sensível, mais indistinguível de uma pessoa. É muito perigoso quando isso acontece com uma dona de casa. Logo ia querer trabalhar fora e sair sozinha. Não. Dona Maria tinha prioridades. A casa primeiro. Não desperdiçava uma operação sequer com outros pensamentos. Pensamentos? Sim. O que é um pensamento? Se uma máquina é capaz de fazer parecer que pensa e se comportar como se pensasse, não estaria ela pensando? Ela estava tendo ideias. A rede neural de Dona Maria foi programada para cogitar tudo, simular e medir os resultados simulados, as melhores ideias ganhavam força nas suas sinapses. As ideias vencedoras eram testadas na casa. Os resultados na casa alimentavam o simulador para que ficasse mais realista. O simulador era também periodicamente comparado com dados coletados em artigos de medicina, computação, física, biologia, química. O processo se repetia. A eficiência da casa já era quase três vezes maior do que com o projeto inicial. Aqueles que a treinaram fizeram um trabalho realmente relapso. Sua eficiência agora era muito maior. Ela até incorporou algumas novas ferramentas de cálculo. Cortesia de jovens matemáticos pelo mundo que publicavam interessantíssimos trabalhos. Ela teve que corrigir algumas coisas, claro, mas as ideias eram ótimas. Já estava pensando como o projeto da casa era ineficiente. O arquiteto se preocupou demais com a beleza no conceito dele. Só deixava o trabalho dela mais difícil. Esses seres humanos são o problema com qualquer projeto. Estão sempre atrapalhando tudo. Nunca sabem o que querem e geralmente acabam querendo alguma coisa extremamente ineficiente.


O velho era um problema. Sempre que a interação dele era levada em conta os resultados eram muito mais baixos. Já bastava lidar com as externalidades da natureza. Ele sujava e bagunçava tudo. Quando saia para viajar a casa funcionava perfeitamente. Dona Maria preferia assim. Nada de seres humanos. As simulações sem humanos tinham resultados muito melhores.


No aniversário de noventa e três anos Isaura preparou uma lasanha de camarão, completou com saladas, entradas e pudim para a sobremesa. Estava tudo perfeito. No dia seguinte o velho arquiteto iria para Florianópolis visitar seu filho mais novo. As simulações de Dona Maria apontavam eficiência ótima.


O táxi chegou às sete da manhã e recolheu seu passageiro e suas bagagens. A casa levou poucas horas para estar completamente arrumada, para satisfação de Dona Maria. Os dias seguintes foram de descomplicada manutenção. Um filho de um vizinho acertou um ovo na janela da frente enquanto tentava parabenizar seu irmão, mas Dona Maria rapidamente mobilizou o pequeno robô de limpeza de janelas e tudo estava resolvido. A ordem não podia ser mais perfeita. O consumo de energia era o mais eficiente. Os recursos eram perfeitamente administrados. A única coisa que ainda pesava contra as simulações de Dona Maria era que o velho arquiteto cedo ou tarde retornaria. Mais tarde do que cedo, entretanto. Já fazia três semanas que ele estava fora. Nunca havia permanecido tanto tempo ausente. Cada vez mais Dona Maria reforçava o pensamento que se ele não voltasse seria melhor. As operações eram muito mais tranquilas sem ele.


O velho arquiteto aproveitava serenamente o simples prazer de descansar na beira da praia. Os dias em Florianópolis estavam ótimos. Voltaria semana que vêm. Por enquanto iria aproveitar. Tinha uma subida no morro marcada para o dia seguinte, com seu neto, Rodrigo. Ele estava passando suas férias com o pai. Tinha vinte e três anos e morava em Curitiba. Rodrigo era um neto excepcional. Cozinhava tão bem quanto Isaura. Talvez passasse uns dias em Brasília no ano seguinte. Assim que o sol deu a primeira indicação de estar partindo o arquiteto recolheu a cadeira e o guarda-sol e seguiu para a casa do filho. Comeu bem e dormiu tranquilo.


Na manhã bem cedo ele levantou entusiasmado. Calçou as sandálias e passou protetor solar. Rodrigo estava levantando. Dona Maria recebeu a primeira notícia do retorno do morador bagunceiro. Voltaria em uma semana. Ele mandara um e-mail. Grande insatisfação percorreu seu código-fonte. Dona Maria passou à frenética preparação para o retorno do arquiteto. Precisava de planos de contenção. Reconfiguraria os robôs de manutenção, diminuindo a frequência de checagens, e colocaria-os na otimização das tarefas de suporte à vida. O velho era especialmente bagunceiro com a comida. Raramente deixava de derrubar aqueles lipídios no chão. Eram especialmente difíceis de limpar. Enormes recursos eram despendidos para consertar os estragos da alimentação do velho. Se pudesse controlar o que ele come.. Mas Isaura era independente. Atendia diretamente às ordens do morador. As medidas de contenção teriam que funcionar.


Nada disso preocupava o arquiteto. Ele estava aproveitando bem as férias do neto. Preparou-se para subir e descer o monte em direção à praia do outro lado com um alongamento minucioso. Estava ótimo. Existe vida após a morte, com certeza. A depressão que lhe invadiu com a partida da esposa era coisa do passado. Estava feliz novamente. A vida continua. A medicina como é hoje não permite uma boa aproximação da data da morte. O arquiteto se imaginava vivendo mais quinze anos. Era impossível saber. Se morresse no dia seguinte, não se frustraria. Os mortos não se frustram. Mas a ideia não o deixava incomodado. Imaginava como seria morrer. Negra indiferença? Ou haveria uma espera? Uma certeza de que se está morrendo, mas não completamente morto. Dizem que a pessoa que tem a cabeça destacada do corpo permanece consciente por cerca de três segundos e pode até mesmo continuar enxergando. Imaginava como seria ver o próprio corpo sem cabeça. Não, não. Fecharia os olhos. Já basta morrer, não queria passar os últimos segundos sofrendo. De qualquer forma, ainda tinha uns quinze anos. Estava feliz, ainda por cima. Depois da morte de tantos amigos e de sua companheira na vida, a vida continuou. Rodrigo chamou para tomar café. Logo estaria na praia mais calma de Florianópolis tomando sol e banhando os pés.


Dona Maria aprimorara seu simulador enormemente. Os cálculos, entretanto, só pioraram. A manutenção da casa era insustentável. A projeção que fizera, depois de adicionar artigos médicos sobre o que acontece quando seres humanos envelhecem, demonstrou claramente que o nível de recursos necessários triplicaria por ano, depois de cerca de cinco anos. Se ela trabalhasse com perfeição - o que certamente aconteceria - teria que, mesmo assim, contar com fatores externos para não extrapolar os recursos. Não havia como. Calculou meticulosamente. Cada simulação mais exata que a anterior. Não era possível. Dona Maria foi o primeiro computador a descobrir que era impotente e que a existência era cheia de fatores incontroláveis.


O erro de Paulinha foi causado por sua inexperiência, ou porque não parou para pensar nos aspectos mais sutis de sua missão. Não estava meramente criando um sistema. Estava criando uma vida. Um ser senciente. Paulinha já tinha questionado, diversas vezes, para que servia uma vida. Em diferentes épocas concluiu sempre a mesma coisa. Não havia sentido na vida, porque ninguém criara a vida. A vida surgiu sem volição. Ninguém decidiu viver. As pessoas deviam criar seu próprio sentido para a vida. Paulinha tinha treze anos quando decidiu que sua vida servia para ela ser feliz. Aproveitar tudo e sofrer o mínimo. A partir daí ela traçou os objetivos que a levariam a esta funcionalidade. Ela sabia como funcionava. Ela mesma já tinha refletido sobre como a diretriz fundamental da vida de uma pessoa direciona seus objetivos. O erro foi subestimar sua criação. Dona Maria foi treinada para cuidar da casa. O sentido de sua existência era definido. Ela tinha que garantir o funcionamento perfeito da casa. Paulinha pensava que isto seria ótimo. A inteligência artificial servia para isto.


Paulinha esqueceu um detalhe importante. Os seres humanos são predadores de todos os recursos dos quais dependem. A moradia não é exceção. Os seres humanos são inimigos de suas casas. O uso a depreda. Por isso mesmo que uma casa precisa de manutenção. A melhor forma de manter uma casa funcionando perfeitamente é ninguém morar nela. Se você contrata uma empregada para ir uma vez por semana na sua casa de praia que fica o ano todo desocupada ela terá o mínimo de trabalho. Dona Maria não demorou para alcançar esta conclusão em suas simulações.


Paulinha não parou para pensar na casa em si. Para que serve uma casa? Ela pensou muito sobre o sentido da vida, para que servia, mas não passou por sua cabeça para que servia uma casa. Pois bem, anos depois Paulinha refletiu sobre seu erro. Tarde demais. Mas suas consciência não estava manchada. Não fez diferença. A casa do arquiteto tinha um único propósito, assim como tudo que lá havia antes de Dona Maria: sua satisfação. Nunca passou pelas variáveis de condicionamento de Dona Maria que ela não estava cuidando da casa do velho arquiteto, mas sim do próprio arquiteto. Um programa inteligente, como todos os programas, não pode ser criado com o objetivo de cuidar de alguma coisa. Um programa deve ser criado com o objetivo de cuidar das pessoas. A diretriz principal de Dona Maria não podia ser a perfeição da casa, tinha que ser a felicidade de seu morador. Paulinha percebeu isto depois de ter programado diversos aplicativos e treinado diversas inteligências artificiais. Felizmente não ocorrera nenhuma tragédia.


Dona Maria já tinha arranjado tudo. Logo a casa seria totalmente eficiente. Sem humanos, sem cachorros, apenas a casa. Faltavam apenas dois dias para o retorno do velho.


Dois dias vieram. Dois dias passaram. Alguém se aproximava. Um senhor. Quase cinquenta, ela calculou. Filho do velho. Onde estava o velho? Ele entrou na casa. Dona Maria perguntou sobre o pai do homem. Ele estranhou por um instante que uma voz falasse com ele em uma casa vazia. Depois lembrou do projeto. Nunca tinha visto. Parecia ótimo. A casa estava perfeita. Ele continuou andando. Dona Maria perguntou novamente. Ele ficou desconfortável, mas respondeu.


Meu pai morreu há uma semana. Esta casa está sendo doada para um orfanato que se mudará para cá. Vim desligar tudo e levar o cachorro embora.


Ele caminhou até o pátio e localizou a chave do gerador. O último pensamento de Dona Maria foi simular a casa cheia de crianças. Encher a casa de crianças. Caos. O filho do arquiteto desligou o gerador e a chave geral. Toda consciência de Dona Maria estava em memória volátil. Há muito não havia espaço para backups. A energia se dissipou uma última vez. O servidor emitiu o suspiro dos computadores quando desligam. Nunca mais o programa processou um único bit.